Arquivo para Novembro, 2007

Contraste Carioca 10 Coisas Que Nos Traduzem…

Postado em Ser Carioca em Novembro 17, 2007 por Edson Duarte

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1 – TOMAR UM CAFEZINHO NO BALCÃO

A gente ama café e recebe de braços aberto novidades com laivos de baunilha ou musgo, próprias para degustação. Mas cafezinho tem de ser tomado em balcão de botequim, em xícaras de louça grossas como as do Lamas. Frescura é bom e a gente gosta – mas na hora do cafezinho, não. No máximo, um pingado com leite…

2 – TER UMA HISTÓRIA PESSOAL DE ASSALTO PRA CONTAR

Essa, lamentavelmente, é fácil. Vai do cordão de ouro arrancado do pescoço no ônibus ao seqüestro-relâmpago que aquela prima sua sofreu, passando pelo assalto no sinal, com arma de brinquedo (ou não…) na cabeça. Tem também roubo de relógio e de celular. Essas histórias, sejam numa festa, no trabalho ou no bar, têm audiência emocionante e profundamente respeitosa. Até alguém surgir com um caso mais cabeludo, é claro.

3 – ORGULHAR-SE DE TER SOBREVIVIDO A PELO MENOS DOIS DOS ITENS ABAIXO:

( ) A guerra na Rocinha em 2004
( ) As enchentes de 1966, 1988 e 1996
( ) O Rock In Rio I
( ) A final da Copa de 1950

( ) O massacre de Vigário Geral

( ) A chacina da Candelária

( ) A queda do Palace II

( ) O naufrágio do Bateau Mouche

( ) O incêndio do Edifício Andorinhas

( ) O fim da Colombo de Copacabana, o fechamento da Cavé e do Bar Simpatia, a demolição do Solar Monjope e do Palácio Monroe, a transformação do Pathé em Igreja Evangélica e a do Copacabana em Academia de Ginástica

4 – IR AO MARACANÃ

Arrastão, briga, flanelinha, calor senegalês: nada disso parece importar. Quando se trata do maior estádio de futebol do mundo, carioca de verdade deixa a razão de lado, segura na mão de Deus e vai – nem que seja uma vez só. A vibração da galera (descrita sempre como indescritível) transformou o Maracanã num ícone urbano. Mas atenção, só vale se for para ver futebol. Papai Noel, Madonna, Tina Turner, Papa e tais não contam.

5 – COMBINAR UM PROGRAMA SEM A MENOR INTENÇÃO DE CUMPRIR

Atire a primeira pedra quem nunca mandou um “vamos nos falar amanhã para marcar aquele jantar” ou um “Passa lá em casa para um café” sem estar exatamente torcendo pela concretização do programa. O pessoal de fora odeia – e até está certo. “A gente se vê”.

6 – VER UM SHOW NA PRAIA

É de graça, não tem muvuca (quer dizer, tem, mas ela se desfaz areia afora), a cerveja dos ambulantes é barata. Mas o cenário, lindo, lindo, é o que faz toda diferença.

7 – Passar horas na fila para comprar ingressos com antecedência para o “Festival do Rio”.

Parece coisa de paulista (ou mineiro, baiano, paraense, pernambucano… Gente que se programa com alguma antecedência, enfim). A diferença é que, mesmo depois do sufoco, o carioca pode desistir de ver o filme na hora: “Ah, fui à praia e acabou me batendo uma preguiça…”

8 – ESBARRAR EM UMA CELEBRIDADE E NEM LIGAR

O Rio em si é uma estrela que sempre atraiu estrelas. Por que, então, ficar todo serelepe quando o Chico Buarque adentra o restaurante? Ou a Malu Mader? Ou o Romário? Até porque nove entre dez celebridades nacionais vivem aqui. Ah, quem apenas finge que não está nem aí ainda tem muito chão a percorrer até atingir a genuína carioquice.

9 – FAZER O PEDIDO NO BAR LAGOA SEM PRECISAR OLHAR O CARDÁPIO

Carioca praticamente nasce conhecendo de cor o menu do Bar Lagoa. Sabe que o bife à milanesa e o salsichão com salada de batata são AS pedidas – e, no segundo caso, sabe que é mais pela salada de batata, cheia de mistérios em sua preparação.

10 – CONHECER ALGUÉM QUE ESTEVE NA FINAL DAS ELIMINATÓRIAS DA COPA DE 1970

Neste dia, o Maracanã bateu recorde de público, abrigando mais de 180 mil pessoas. As histórias são as mais escabrosas, gente espremida nas arquibancadas, túneis do estádio congestionados, calor insuportável… Mas dá uma inveja danada.

Origem: http://www.oseuguia.com.br/carioca.html

Estado da Guanabara

Postado em Viniciu de Moraes em Novembro 6, 2007 por santerclei

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Um repórter me telefona, eu ainda meio tonto de sono, para saber se eu achava melhor que o Distrito Federal fosse incorporado ao Estado do Rio, consideradas todas as razões óbvias, ou se preferia sua transformação no novo Estado da Guanabara. Sem hesitação optei pela segunda alternativa, não só porque me parece que o Distrito Federal constitui uma unidade muito peculiar dentro da Federação, como porque vai ser muito difícil a um carioca dizer que é fluminense, sem que isso importe em qualquer desdouro para com o simpático estado limítrofe. O negócio é mesmo chamar o Distrito Federal de Estado da Guanabara, que não é um mau nome, e dar-lhe como capital o Rio de Janeiro, continuando os seus filhos a se chamarem cariocas. Imaginem só chegarem para a pessoa e perguntarem de onde ela é, o ela ter de dizer: “Sou guanabarino, ou guanabarense”… Não é de morte? Um carioca que se preza nunca vai abdicar de sua cidadania. Ninguém é carioca em vão. Um carioca é um carioca. Ele não pode ser nem um pernambucano, nem um mineiro, nem um paulista, nem um baiano, nem um amazonense, nem um gaúcho. Enquanto que, inversamente, qualquer uma dessas cidadanias, sem diminuição de capacidade, pode transformar-se também em carioca; pois a verdade é que ser carioca é antes de mais nada um estado de espírito. Eu tenho visto muito homem do Norte, Centro e Sul do país acordar de repente carioca, porque se deixou envolver pelo clima da cidade e quando foi ver… kaput! Aí não há mais nada a fazer. Quando o sujeito dá por si está torcendo pelo Botafogo, está batendo samba em mesa de bar, está se arriscando no lotação a um deslocamento de retina em cima de Nélson Rodrigues, Antônio Maria, Rubem Braga ou Stanislaw Ponte Preta, está trabalhando em TV, está sintonizando para Elizete.

Pois ser carioca, mais que ter nascido no Rio, é ter aderido à cidade e só se sentir completamente em casa, em meio à sua adorável desorganização. Ser carioca é não gostar de levantar cedo, mesmo tendo obrigatoriamente de fazê-lo; é amar a noite acima de todas as coisas, porque s noite induz ao bate-papo ágil e descontínuo; é trabalhar com um ar de ócio, com um olho no ofício e outro no telefone, de onde sempre pode surgir um programa; é ter como único programa o não tê-lo; é estar mais feliz de caixa baixa do que alta; é dar mais importância ao amor que ao dinheiro. Ser carioca é ser Di Cavalcanti.

Que outra criatura no mundo acorda para a labuta diária como um carioca? Até que a mãe, a irmã, a empregada ou o amigo o tirem do seu plúmbeo letargo, três edifícios são erguidos em São Paulo. Depois ele senta-se na cama e coça-se por um quarto de hora, a considerar com o maior nojo a perspectiva de mais um dia de trabalho; feito o quê, escova furiosamente os dentes e toma a sua divina chuveirada.

Ah, essa chuveirada! Pode-se dizer que constitui um ritual sagrado no seu cotidiano e faz do carioca um dos seres mais limpos da criação. Praticada de comum com uma quantidade de sabão suficiente para apagar uma mancha mongólica, tremendos pigarreios, palavrões homéricos, trechos de samba e abundante perda de cabelo, essa chuveirada — instituição carioquíssima restitui-lhe a sua euforia típica e inexplicável: pois poucos cidadãos poderão ser mais marretados pela cidade a que ama acima de tudo. Em seguida, metido em sua beca de estilo, que o torna reconhecível por um outro carioca em qualquer parte do mundo (não importa quão bom ou medíocre o alfaiate, de vez que se trata de uma misteriosa associação do homem com a roupa que o veste), penteia ele longamente o cabelo, com gomina, brilhantina ou o tônico mais em voga (pois tem sempre a cisma de que está ficando careca) e, integrado no metabolismo de sua cidade, vai a vida, seja para o trabalho, seja para a flanação em que tanto se compraz.

Pode-se lá chamar um cara assim de guanabarino?

Vinicius de Moraes, carioca da gema, opina quando da polêmica mudança da capital federal para Brasília.  Uma crônica bem humorada retratando bem o espírito de sua gente e da cidade.


Texto extraído do livro “Para Viver Um Grande Amor”, Livraria José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1984, pág. 185.